Em Olinda, Pernambuco, no dia 22 de Setembro de
1918, e na residência de seus pais – João Baptista Martins
Saldanha e Maria da Conceição de Barros Saldanha, nascia um
menino que foi chamado Affonso Henrique. A Alegria foi grande.
Era o fim da1ª Guerra Mundial e festejando os dois
acontecimentos derramaram champanhe no neném.
Teve 4 irmãs: Maria Julita, Maria Celeida, Maria das
Graças e Maria dos Prazeres.
Fez o curso primário no Colégio Monsieur Fabrício, e foi
sempre aluno brilhante.
Seu primeiro emprego aos 7 anos foi no cinema local. Ele
pegava a programação dos dias seguintes e levava-as para seu
tio, Horácio Saldanha que as publicava no jornal de sua
propriedade. O salário: não pagava entrada no cinema.
Viveu uma infância muito feliz cercado de muito amor.
Depois de 1930 a família mudou-se para o Rio de Janeiro,
ele então ganhou uma bolsa de estudos no Colégio Anglo
Americano. Fez todo o curso ginasial, 1º e 2º grau como 1º
aluno, não só da sua classe como do colégio todo. Era muito
estimado pelos professores e pelos colegas aos quais dava aulas
em casa facilitando-lhes, a vida.
Entrou então para a Universidade para estudar química e
ciências em geral.
Entretanto, seu pai faleceu e como a família não era
rica, Affonso teve que trabalhar para ajudar em casa.
Foi então convidado para ensinar matemática, geografia
geral, geografia do Brasil e ciências naturais em vários
colégios do Rio de Janeiro. Registrou-se no Ministério de
Educação e Saúde, Departamento Nacional de Educação, sendo os
números de registro 24.594 e 3146.345, de acordo com o Decreto
Lei nº 8777 de 22/01/46 para exercer o magistério no 1º e 2º
ciclo secundário em todo o território nacional.
Em 17 de fevereiro de 1940 foi nomeado Inspetor de
Ensino Federal, cargo de natureza técnico-científica que foi
sempre foi exercido com muita lisura e dedicação.
No MEC organizou e deu aulas em cursos de Secretários.
Fez muitas palestras sobre diversos assuntos.
Na Fundação Brasil Central como Chefe do Serviço de
Ensino, organizou planos para escolas no Oeste. Em Aragarças
para onde se mudou com sua família, a mulher e seus filhos ainda
pequenos, fez um trabalho maravilhoso com os nossos irmãos do
oeste que estavam entregues a sua própria sorte.
Em Aragarças, fundou uma escola primária e junto com os
médicos Dr. Estillac Leal e o Dr. França, cuidou da verminose,
sífilis, pediculose (piolhos) e tratamento dentário. Auxiliado
por seu assistente, o Tarzan, organizou a Educação Física
promovendo jogos, principalmente o futebol, levantando assim o
moral daquelas pobres crianças que eram tratadas de qualquer
jeito.
Ajudado por sua esposa organizou cursos de corte e
costura, bordados, e ainda noções de enfermagem.
Para que não faltasse, remédios, material escolar e
merenda escolar; junto com sua esposa organizou uma cantina onde
eram vendidos bolos, sanduíches, e refrescos para o pessoal da
Base da Fundação. A merenda escolar era fornecida para 100
crianças no turno da manhã e 100 do turno da tarde.
Havia também o curso noturno, para adultos, que era
muito freqüentado. Além disso promoveu a criação de escolas em
Rio Verde, Xavantina e em outros municípios do Estado de Goiás.
Por motivos políticos, foi convidado a deixar a Fundação
Brasil Central o que causou uma enorme manifestação de pesar por
parte dos moradores de Aragarças, Barra do Garça e localidades
próximas.
Voltando ao Rio de Janeiro, foi convidado por seu antigo
professor Dr. Mário Porto para se integrar ao corpo docente do
Instituto Educacional Brasil América, onde Souza, Mallet
Soares, Rui Barbosa, e outros. Organizou cursos de Secretariado
na CADES.
Como colaborador da Enciclopédia Britânica do Brasil
(Mirador), escreveu sobre:
- Educação Comparada;
- Educação Física;
- Educação Profissional;
- Administração Escolar;
- Atividades extra curriculares;
- História da Educação;
- Maria Montessori;
-
Johann Friedrich Herbart;
-
João Henrique
Pestalozzi;
-
Friedrich Froebel;
-
William Heard Kilpatrick;
-
Domingo Faustino Sarmiento.
E ainda publicou 2 livros didáticos de nível médio de
História e Geografia.
Foi professor do Colégio do IAPETEC, Helvécio Xavier
Lopes, e depois ocupou o lugar de Diretor do mesmo colégio,
tendo conseguido organizá-lo. Deixou o cargo em 1964.
Sua atuação no Sindicato dos professores foi a partir de
1952 quando se discutia a validade da Portaria 204 do Ministério
de Educação, que subordinava o salário dos professores ao
pagamento das anuidades escolares. Na prática, os professores,
para efeito de remuneração deviam se aliar ao diretores, para
tirar o dinheiro dos alunos.
Saldanha aliou-se ao grupo que rejeitava esta Portaria.
Considerava que a atitude correta devia ser a Justiça do
Trabalho.
Intensificou sua atuação no Sindicato dos Professores,
tendo ocupado os cargos de Secretário, Vice-Presidente e
Presidente.
Participou e organizou alguns congressos de educadores
no Brasil e exterior.
Em 1964, quando foi cassado ocupava o cargo de 1º
secretário do Sindicato dos Professores. Foi então enquadrado e
interrogado no IPM, dito dos professores, juntamente com outros
professores, como o professor Bayard Boiteux, Carlos Teixeira,
José Candido Filho e outros.
Este IPM foi arquivado por seu presidente Major Bonequer
que se achou incompetente para julgar professores.
Mas, tempos depois, foi preso e torturado no CODI,
acusado de estar fomentando um contra golpe no seio estudantil,
para acabar com a ditadura militar. Ficou preso e incomunicável
por quase 2 meses. Depois foi preso novamente pela Marinha,
durante 1 mês.
Foi julgado no IPM dos Intelectuais, e mesmo que todos
os réus deste IPM, tenham sido absolvidos por falta de provas,
foi aposentado em suas funções pelo A.I-5.
Quando foi torturado no CODI, aplicaram choques
elétricos em um sinal de pele localizado em suas costas. Aquele
traumatismo, conforme laudo médico (que ficou integrado ao IPM
dos Intelectuais), degenerou em câncer que foi retirado, mas que
passado um ano, e por metástase apareceu novamente, desta vez no
cérebro. Foi operado na Casa de Saúde do Dr. Eiras, pelo Dr.
Paulo Niemeyer, e embora a operação tenha sido perfeita, novas
metástases desta vez generalizadas, foram aparecendo e ele
faleceu em 08 de dezembro de 1974.
Antes de ir para a Casa de Saúde do Dr. Eiras, mesmo já
doente, estava dando aulas de matemática gratuitas, a uma jovem
filha de uma serventuária do MEC. Depois, foi operado e ficou em
estado de coma por 15 dias, como era forte mesmo, retornou a
consciência e logo lembrou-se da mocinha e perguntou:
“E a Andrea, que foi feito dela? Será que passou na
prova de matemática?” - A Andrea já tinha ido lá, na
Casa de Saúde, agradecer ao professor porque tinha sido
aprovada.
Era também muito conceituado no MEC, onde trabalhava e
no SENAC, SENAI e Sindicato de Entidades Culturais, onde
prestava sua colaboração.
O Saldanha casou-se aos 23 anos com Maria Idalina de
Barros Saldanha e tiveram 5 filhos: Luiz Carlos, Ana Maria,
Carlos Eduardo, Jorge Alberto e Sonia Regina (já falecida). Foi
ótimo marido e pai.
Teve milhares de alunos na zona sul do Rio de Janeiro,
que muito o estimavam e respeitavam. É que o professor Saldanha,
tinha o dom de dialogar e de transmitir a todos não apenas o
conteúdo de suas matérias, mas também a fé em valores sociais e
humanos, que se encontram de alguma forma expressos em carta,
enviada á sua esposa no dia de seu aniversário, nesta ocasião.
Saldanha se encontrava preso e mesmo assim encontrou palavras de
estímulo e ternura, como as que se seguem, e que marcam sua
personalidade.
“Idazinha”, meu amor:
Esta deveria acompanhar-se de rosas, as quais, com sua beleza,
seriam um símbolo do nosso amor.
Circunstâncias imprevisíveis obrigaram-me, no entanto a
deixar-lhe, numa data de tão grande significação para mim,
apenas esta mensagem:
“Que unidos, permanentemente unidos, tenhamos a abundante
energia para suportar os graves momentos de vicissitudes como o
que ora atravessamos; que tenhamos a suficiente clareza em saber
conduzir-nos e, mais que isto, conduzir aqueles que tanto
precisam de nós; que tenhamos um grande sentimento de fé, cada
um de nós dentro de sua concepção, mas de uma fé inquebrantável
que no leve a, sem desespero, enfrentar e vencer a luta que ora
travamos e assim possamos volver a trilhar o feliz caminho que
vimos percorrendo desde que começamos a nos amar.”
O seu
Affonso Henrique Martins Saldanha
10/07/70