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Nota
preliminar
O que se vai ler a seguir não é
propriamente a história do Rádio Clube de
Pernambuco, mas notas sobre suas origens, fundação e
primeiros tempos que no futuro poderão servir de
subsídio para um historiador que tenha os dons de um
bom escritor, contar devidamente a história dos
pioneiros que deram a Pernambuco a primazia de ter o
primeiro Rádio Clube fundado no Brasil e
provavelmente na América do Sul.
As fontes de informação
de que me servi foram, principalmente, documentos do
arquivo de Augusto J. Pereira, o fundador da Rádio
Clube de Pernambuco, documentos originais que
asseguram autenticidade à estas notas. Ajudou também
meu testemunho pessoal, já que estive intimamente
ligado às atividades do Rádio Clube desde
provavelmente 1921 até1929, quando me transferi para
o Rio de Janeiro.
E foi com muita emoção
que encontrei nesses documentos referencias aos
companheiros do tempo da minha juventude e que já se
foram. Também me comoveram as recordações dos
primeiros tempos de funcionamento da estação
transmissora do Rádio Clube, a SQIC, da qual fui
operador técnico ou melhor dizendo, factótum, já que
até, algumas vezes, quando da falta eventual do
locutor, ocupava eu o microfone.
Quando da reorganização
do Clube em 1923, fiz parte da Comissão
Reorganizadora, conforme nota publicada no "Diário
de Pernambuco", de 13 de outubro de 1923, tinha,
então, 16 anos e era o benjamin do grupo.
Reorganizado o Rádio
Clube, outros se apresentaram como fundadores ou
pioneiros e com muita atuação na imprensa se
firmaram nessa posição. Augusto J. Pereira era
avesso à polemica mas numa ocasião, já residindo no
Rio de Janeiro, para onde se transferira, esboçou
uma reação escrevendo: "Não sei se deva classificar
de amargura, decepção ou desilusão o sentimento que
me causou a notícia publicada (...) e ficou nisso.
O radialista
pernambucano Nelson Vaz, que atuou no Rádio Clube,
no inicio das suas transmissões, visitou Augusto
quando este já se transferira para o Rio de Janeiro
e com muito entusiasmo, sugeriu levar seu arquivo a
um jornalista para que fosse feito um trabalho
jornalístico contando a história do Rádio Clube.
Nelson sugeriu o jornalista pernambucano Nestor de
Holanda que na época residia no Rio. Levou a pasta
com os documentos do arquivo mas, no trajeto, a
pasta foi perdida. Posteriormente recuperada foi
levada ao seu destinatário.
Nestor que não chegou a
iniciar seu trabalho, faleceu pouco depois. E
Augusto também faleceu antes de recuperar o seu
arquivo. Coube a Ewaldo Joaquim Pereira, filho de
Augusto e sua esposa Maria Celeida Saldanha Pereira,
pernambucanos, reaver da família do jornalista
falecido, a pasta de documentos que daria a Ewaldo
as informações necessárias para a realização do
desejo de Nelson Vaz. Entretanto antes que isso
acontecesse, Ewaldo faleceu.
Quando da minha viagem
ao Recife em Setembro último, por solicitação dos
pesquisadores da Fundação Joaquim Nabuco, prestei um
depoimento oral sobre o Rádio Clube, arrancando da
memória tudo que sobre o assunto me ocorria, dando
meu testemunho pessoal dos fatos que presenciei ou
dos quais participei há mais de meio século atrás.
Nessa ocasião entreguei á Fundação um exemplar dos
Estatutos do Rádio Clube datado de 1919 e cópias de
uns poucos elementos de que dispunha.
De volta ao Rio, Celeida
me informou ter encontrado a pasta de Augusto com os
tão almejados documentos que tornaram possível a
elaboração destas notas. A Celeida quero aqui
agradecer sua valiosa e inestimável colaboração.
É extremamente
gratificante a oportunidade que estou tendo de
contribuir com estas notas para a restauração da
verdade histórica sobre a fundação do Rádio Clube de
Pernambuco e de trazer seu fundador ao podium dos
pioneiros.
Rio de janeiro,
abril de 1984
Oscar Dubeux Pinto
RÁDIO CLUBE DE
PERNAMBUCO
Notas sobre sua
história
Oscar Dubeux Pinto
Pouco se tem publicado sobre as origens do Rádio
Clube de Pernambuco, mas há informações de que no
inicio da Primeira Guerra mundial, já havia em
Pernambuco amadores de radiotelegrafia que se
intercomunicavam utilizando aparelhos construídos
por eles próprios. Entretanto, o uso da
radiotelegrafia era privativo do governo e a
legislação sobre o assunto não permitia aos amadores
sua pratica.
Sobre esse
assunto, o jornal "A Província"de 20 de abril de
1915 publicava nota de autoria de Augusto Jose
Pereira, na qual se sente a preocupação das "apprehensões
de estações radiotelegráficas de amadores, comumente
chamadas estações clandestinas"e mais adiante uma
sugestão de associação: "Aqui em Pernambuco já se
conta em mais de uma dezena o número de amadores,
por isso, pensamos seria conveniente uma reunião,
para, de acordo com os amadores de outros estados da
União e depois da guerra, ser solicitada aos poderes
competentes uma lei semelhante á inglesa ou
americana (...)".
Outro documento, sem data, mas
aparentemente da mesma época, mostra que já havia a
idéia da formação de uma associação de
radioamadores; o documento sugere o nome da
associação e relaciona os amadores com seus
respectivos indicativos de chamada.
Um documento que merece ser citado é
uma nota-fiscal de uma firma de Nova York, "The
Electro Importing Co.", com data de 2 de julho de
1915, nota nº 229105, endereçada a Augusto J.
Pereira e referente a componentes para aparelhos de
radiotelegrafia e instrumentos de física. Os
amadores construíam seus próprios aparelhos mas os
componentes essenciais eram, então, importados.
Durante a Primeira Guerra Mundial,
quando os amadores não podiam usar seus aparelhos, a
idéia da constituição de uma associação parece não
ter progredido, e até mesmo depois da cessação da
guerra, na falta de uma legislação especifica sobre
o assunto, os amadores continuaram sem poder
realizar comunicações ou o faziam com risco de serem
detidos e ter seus aparelhos apreendidos.
Em 28 de março de 1919, Augusto Pereira
escrevia a um radioamador que residia no Rio: "Acabo
de ler no Correio da Manhã de 19 do corrente, a
notícia de sua prisão por ter montado uma estação ou
posto radiotelegraphico dos que a imprensa de nossa
pátria, injustamente, classificada de CLANDESTINOS
(...).
Agora que não havia mais guerra, os
amadores, já em número maior, tratavam de se
congregar numa associação que defendesse seus
interesses, não somente no campo da radiotelegrafia,
como também na radiotelefonia, ou seja a transmissão
da voz e da música pelo rádio.
E no dia 6 de abril de 1919 foi fundado
o Rádio Clube de Pernambuco.
O "Jornal de Recife", edição da tarde,
de 7 de abril de 1919, assim noticia o
acontecimento:
"RADIO CLUB - Consoante
convocação anterior realizou-se hontem na Escola
Superior de Eletricidade, a fundação do Radio Clube,
sob os auspícios de uma plêiade de moços que se
dedicam ao estudo da eletricidade e da telegrafia
sem fio.
Ninguém desconhece a
utilidade e proveito dessa agremiação, a primeira no
gênero fundada no país.
Foram tomadas diversas
medidas, como sejam, designações de comissões para
se entenderem com as autoridades do Estado,
etc.(...)"
A diretoria do Rádio
Clube ficou assim constituída, o presidente por
aclamação e os demais membros por eleição:
Presidente:
Augusto J. Pereira
Secretário:
Alexandre Braga
Thezoureiro:
Arthur A. Coutinho
Orador:
Carlos Rios
1º Suplente:
Severino Mendonça
2º Suplente:
Alfredo Watts
3º Suplente:
Ismar P. Just
- Comissão
para a impressa:
João H.
P. Lyra, Carlos Rios, Arthur A. Coutinho.
- Comissão
de relações com autoridades:
Augusto
J. Pereira, Alexandre Braga, Abelardo R. Barros.
- Comissão
para confeccionar o regimento interno:
Ismar P.
Just, Severino Mendonça, Santos Crespo.
Também estiveram
presentes a sessão de fundação Sylvio Chartron e
Areas.
Não foi encontrado o
texto da ata da sessão de fundação nem a relação das
pessoas que a assinaram.
Há uma informação de
Augusto Pereira, de que os documentos foram
entregues ao Rádio Clube, após sua reorganização e
que existia no clube um quadro com a relação dos
seus fundadores.
Sobre os pioneiros,
Augusto cita a nota publicada no jornal "A
Província", em 1915, já mencionada, os nomes de Luiz
Temporal, Macedo, George Gatis, e Chaplin.
Há referencias diversas
a nomes que, se não foram fundadores, foram ligados
ao clube desde seus primeiros tempos e que são os
seguintes:
Alberto
Soares, Alfredo da Costa Moreira, Conrado
Montenegro,
Eduardo
Brennand, Euclides de Carvalho, Luiz Carneiro de
Souza,
Luiz de
Carvalho, Luiz Medeiros, Manoel Roberto da
Costa,
Ruber
Van Der Linden, Sá Carneiro, Tito Xavier.
Após a sessão de
fundação, foi endereçado ao Sr. Ministro da Viação,
o seguinte telegrama: "Amadores telegraphia sem fio,
hoje reunidos Escola Superior de Eletricidade,
fundaram Radio Club fim propagar conhecimentos
técnicos associados. Confiam vosso patriótico apoio.
Saudações. ass. Augusto Pereira presidente."
Em resposta a esse
telegrama foi recebida a seguinte carta, assinada
pelo Sr. Feliciano de Souza Aguiar, auxiliar de
Gabinete do Sr. Ministro da Viação:
"Exmo Sr. Augusto
Pereira
Sua Ex. o Sr. Ministro
da Viação tendo recebido vosso telegrama de 06 do
corrente, participando a fundação do Rádio Club,
incumbiu-me de escrever agradecendo a gentileza da
comunicação e apresentar os sinceros votos de
prosperidade.
S. Ex. pede a fineza de
transmitir aos demais associados os mesmos votos.
Cordiais Saudações."
Os estatutos do Rádio
Clube foram aprovados em reunião de Assembléia
Geral, realizada na Escola Superior de Eletricidade
no dia 27 de abril de 1919.
Receberam "visto"do Sr.
Chefe de Policia, Sr. Antonio Guimarães, na Central
de Policia do Estado de Pernambuco em 12 de maio de
1919.
Na mesma reunião foi
também aprovado o "Regulamento das Estações de
Amadores".
Três meses após a
fundação do Rádio Clube, surge nos Estados Unidos a
pioneira revista "Radio Amateur News"que no seu
segundo número, de agosto de 1919, na página 69,
publica uma carta de Augusto J. Pereira comunicando
a fundação do Rádio Clube e solicitando do editor
cópia do texto da lei americana que permitia aos
amadores usar seus aparelhos de radiotelegrafia,
texto esse que serviria de subsidio para elaboração
de uma lei semelhante que seria solicitada ao
Congresso Nacional.
O "Regulamento das
Estações de Amadores"já referido, era um documento
interno e o funcionamento das estações dependia de
legislação pertinente, somente conseguida anos mais
tarde.
Ainda a revista "Rádio
Amateurs News", volume 1, nº 3, de setembro de 1919,
na página 126 , publica os textos de duas cartas de
Augusto Pereira; uma apresentando o secretário do
Rádio Clube Sr. Alexandre Braga, em viagem pelos
Estados Unidos, ao presidente da "Radio League of
América"e outra dirigida à "Radio League",solicitando
facilidades para obtenção de informações de
interesse de seus associados.
Fundado o Rádio Clube
era agora necessário um local para sede da
agremiação.
Na "Imprensa Oficial" do
Estado de Pernambuco, de 12 de setembro de 1919, há
um despacho do Sr. Dr. Governador do Estado: "Radio
Clube, representado por seu presidente, solicitando
a cessão de um pequeno pavilhão existente no Jardim
Treze de Maio, para o referido Club - Sim, de
acordo com os pareceres."
Mas era necessário fazer
uma caução de 200$000.
E, ainda na "Imprensa
Oficial" de 2 de outubro de 1919, há o seguinte
despacho: "Augusto Joaquim Pereira, presidente do
Radio Clube, pedindo dispensa da caução de 200$000
referente à cessão gratuita do pavilhão no Jardim
Treze de Maio - Não pode ser atendido."
Foi, então, feita uma
subscrição para a obtenção da quantia necessária,
que se completou em 14 de novembro de 1919.
E outros foram se
juntando ao club: Luiz C.do Souto, Cavendish,
Raymond Gatis, Menandro, Caldas e Manoel Tinoco.
Tito Xavier que morava
em Casa Amarela, era um amador muito destacado
enfrentando a proibição legal, fez radiodifusão,
irradiando musica, sem se identificar, utilizando um
transmissor por ele mesmo construído.
Não foi encontrada
qualquer informação referente à data em que isso
aconteceu, infelizmente.
A falta de uma
legislação que permitisse aos amadores operar suas
estações foi um entrave ao desenvolvimento do clube.
Muitos desses amadores se dedicaram a outros campos
da ciência, assim Augusto Pereira tinha em sua
residência muitos aparelhos de física, anos mais
tarde a revista "Radio News", volume 6, nº 5, de
Novembro de 1924, publicava uma foto de sua estação
onde aparece uma maquina eletroestaica de WIMHURST,
tubo de raios X (desde 1915), etc.
Luiz Temporal montava em
sua residência, na Várzea, um posto meteorológico
com termógrafo, pluviômetro etc., e fazia previsões
meteorológicas com acerto...
Na época, para se ter um
simples receptor de radio, era necessário requerer
uma licença à Repartição Geral dos Telégrafos.
O pedido deveria ser
acompanhado de atestado de idoneidade, e seu
solicitante aguardava o tempo, muitas vezes longo,
para que seu requerimento percorresse os lentos e
tortuosos tramites burocráticos das repartições
oficiais. E muito depois, em 1923, cinco anos apos o
termino da Primeira Grande Guerra, ainda persistiam
as restrições.
Augusto J. Pereira
requereu licença para instalar um receptor de radio,
atente-se bem, um simples receptor de radio; não se
tratava de transmissor, para o que teve de fazer os
seguintes ofícios:
1) Requerimento ao Sr.
Chefe de Policia, solicitando um atestado de
idoneidade;
2) Requerimento ao Sr.
Ministro da Viação, solicitando licença para
instalar um receptor de rádio, declarando o motivo
dessa solicitação, juntando o esquema do aparelho e
mais o atestado de idoneidade,
3)Requerimento ao Sr.
Diretor Geral dos Telégrafos, pedindo encaminhamento
ao Sr. Ministro da Viação, dos requerimentos acima
referidos.
O requerimento que
iniciou o processo, o que solicitava o atestado de
idoneidade, está datado de 26 de junho de 1923. Em
15 de outubro os documentos eram devolvidos mas
ainda faltava cumprir uma exigência: a declaração
exigida pela Diretoria dos Telégrafos e constante do
requerimento dirigido ao Sr. Ministro da Viação, que
é a seguinte: Ö suplicante obriga-se a cumprir todas
as instruções que sobre o assunto lhes sejam
transmitidas por esse Ministério ou pela Repartição
Geral dos Telégrafos."
Em meados de 1923, o Sr.
João Cardoso Ayres Filho juntou-se aos fundadores do
Rádio Clube, com o fim de reorganizar essa
instituição, revitalizando-a, para consecução dos
objetivos pretendidos.
Anos mais tarde Augusto
escrevia:
"...até que como um enviado do céu, surge a
figura de João Carlos Ayres Filho. Este de volta de
uma de suas costumeiras viagens ao estrangeiro e
tendo observado o valor e a utilidade patriótica da
nossa associação, propôs-nos a sua reorganização,
disposto a empregar o seu capital e de vários amigos
influentes, na reorganização do Rádio Clube de
Pernambuco, em bases que permitissem maior
desenvolvimento."
Em 13 de outubro de
1923, o "Diário de Pernambuco"publicava na página 3,
a seguinte nota:
"Rádio Clube de
Pernambuco
Os Srs. João Cardoso
Ayres Filho, Antonio Ramiro Costa, Augusto Pereira,
Floriano Costa, Carlos Lacombe, Oscar M. Pinto,
Carlos Lyra Filho, João Pereira de Lyra, Oscar
Dubeux Pinto, Tito Xavier e Mario Pena,
reorganizadores do Rádio Clube de Pernambuco,
convidam todos os interessados e amadores da
utilidade rádio-elétrica a se reunirem no salão do
Diário de Pernambuco na próxima terça-feira, 16 do
corrente, ás 20 horas, afim de reformarem a
instituição que terá por fim vulgarizar e defender
os interesses da radioeletricidade."
A sessão de
reorganização do Rádio Clube de Pernambuco que foi
iniciada sob a presidência do Sr. Augusto J.
Pereira, realizou-se no dia 17 de outubro de 1923,
no salão nobre do Diário de Pernambuco.
Na imprensa não foi
encontrado registro dessa sessão, As notas do Diário
de Pernambuco, foram pesquisadas na coleção desse
jornal existente na Biblioteca Nacional, no Rio de
Janeiro, mas faltam, na coleção, vários números,
inclusive o de 18 de outubro que, é de supor,
deveria conter uma nota sobre a sessão do dia 17.
Há, entretanto, no número de 19 de outubro, a
seguinte nota que parece uma noticia complementar:
"RÁDIO CLUBE DE
PERNAMBUCO
Na sessão de
reorganização do Rádio Clube de Pernambuco realizada
anteontem às 20 horas no salão nobre do Diário de
Pernambuco, foi feita com grande êxito uma
demonstração prática da recepção radiotelefônica,
tendo sido irradiado um concerto pela estação Rádio
Clube e o seguinte discurso de saudação aos
reinstaladores: "(aqui omitido).
De acordo com essas
informações a primeira transmissão do Rádio Clube de
Pernambuco foi feita a 17 de outubro de 1923,
entretanto a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro,
fundada por Henrique Morize e Roquette Pinto em 20
de abril de 1923 iniciava suas transmissões em 7 de
setembro do mesmo ano, um mês e dez dias antes de
Pernambuco.
Sobre esse assunto tem
havido polemica, talvez devido a falta de
informações exatas. Uma publicação da Rádio Cinephon
do Brasil informa que "em 17 de outubro de 1922 o
Rádio Club foi reorganizado (...) tendo nesse dia
feito sua primeira emissão com um pequeno
transmissor de 10 watts (...)"
Há engano nessa
informação; não foi em 1922 e sim 1923. Também em
artigo de Salvyano Cavalcanti de Paiva, publicado
no Correio da Manhã", do Rio de Janeiro de 13 de
setembro de 1961, lê-se: Os primeiros ensaios
brasileiros começaram com a Rádio Clube de
Pernambuco, fundada com o propósito de fazer
radiotelegrafia; isto em 6 de abril de 1919. Em 1922
reorganizada, essa emissora passou a radiodifusão
com um transmissor de 10 watts (...). Novamente o
mesmo engano; não foi em 1922 e sim 1923.
Há informações de que a
partir da sessão de reorganização, o Rádio Clube de
Pernambuco fez radiodifusão com um transmissor
Westinghouse de 10 watts, segundo algumas fontes ou
de 20 watts em outras, instalado na rua Aurora nº
1377. Entretanto é possível e muito provável que
esse transmissor, funcionando em transmissões
experimentais já estivesse em funcionamento bem
antes da data acima referida.
Augusto Pereira possuía
um pequeno transmissor de telefonia, de 5 watts, de
sua construção, que se vê na fotografia publicada na
revista "Rádio Amateurs News" de novembro de 1924, á
pagina 680, já referida (anexo 12). Na legenda da
fotografia há detalhes técnicos desse transmissor.
Não foi possível encontrar a data que começou a
funcionar. Funcionava sem licença porque não se
concedia licença para transmissores. A fotografia é
de sua estação-laboratório quando Augusto residia na
Rua Conde da Boavista nº1126.
Tem-se dito que o Rádio
Clube de Pernambuco foi fundado por um grupo de
amadores de radiotelegrafia mais interessados em
rádio como uma ciência do que sua aplicação para
fins de radiodifusão, mas cabe lembrar que na época
da sua fundação não existia nem se pensava em
radiodifusão, e foi somente a 2 de novembro de 1920
que se inaugurou a primeira estação de radiodifusão
nos Estados Unidos, a KDKA da Westinghouse, com um
pequeno transmissor de 50 watts, instalado em East
Pittsburg, Pennsylvania (Enciclopédia Britannica -
Verbete: Broadcasting).
A radiodifusão nasceu,
assim, no continente americano, 1 ano e 7 meses após
a fundação do Rádio Clube de Pernambuco, que, no
entanto, nos seus Estatutos, já incluía como fins de
associação: "Vulgarizar a telegrafia sem fio e
outras aplicações das ondas hertzianas, tais como
telefonia sem fio (...)".
Na França, o termo "Radiodiffusion"
somente começou a ser usado em 1925 (Dictionnaire
Robert), ou seja; seis anos após a fundação do Rádio
Clube de Pernambuco.
É de Pernambuco,
indiscutivelmente, a primazia de ter a primeira
sociedade de Rádio fundada no Brasil, que foi o
Rádio Clube de Pernambuco.
A revista RADIO do Rio
de Janeiro, fundada e dirigida pelo Sr. Roquette
Pinto, um dos fundadores da Rádio Sociedade do Rio
de Janeiro, informa no seu número 13, de 15 de abril
de 1924: "RADIO circula, desde hoje, como órgão
oficial do Rádio Clube de Pernambuco.
Em se tratando da mais
antiga das sociedades de rádio do Brasil, é muito
justo que a deliberação dos seus ilustres diretores
nos encha de prazer. (...)"
Em 24 de abril de 1924,
o pesquisador destas notas, em palestra proferida no
Gabinete Português de Leitura, de Recife, assim se
referia ao Rádio Clube: (...) Pernambuco, o Leão do
Norte, tem a glória de ter fundado a primeira
instituição desse gênero na América do Sul, a qual
teve o nome de Rádio Clube de Pernambuco, e foi
fundada no dia 6 de abril em 1919, graças a
iniciativa de alguns amadores de tão útil
ramificação da eletricidade, destacando-se entre
eles Augusto Pereira."(RADIO nº 17, 15 de junho de
1924, página 24).
Já reorganizado, o Rádio
Clube de Pernambuco adquiriu terreno à avenida Cruz
Cabugá, 394, em Santo Amaro, construiu edifício para
sua sede e instalações, onde foi montado um nosso
emissor, cujas transmissões foram inauguradas no dia
8 de novembro de 1924 (RADIO nº 27, 15 de novembro
de 1924).
Na solenidade dessa
inauguração, o presidente do Rádio Clube, Sr. João
Cardoso Ayres Filho pronunciou um discurso do qual
seguem-se alguns trechos (RADIO, nº 31, 15 de
janeiro de 1925).
Cabe-me na qualidade de
presidente do Rádio Clube, entregar hoje a
Pernambuco a sua estação de "broadcasting".
Um grupo de
pernambucanos curiosos e inteligentes chefiados pelo
nosso companheiro Augusto Pereira, fundou em 1919 o
"Radio Clube de Pernambuco".
Somente então a
radiotelegrafia era conhecida e anos depois é que a
onda hertziana é aproveitada para a transmissão da
Voz. O ano passado, em minha viagem à Republica
Argentina, notei em Buenos aires um intenso
movimento radiocultor, com antenas em toda parte,
revistas,prospectos e uma quase mania pelo
"broadcasting"(...).
Oito dias depois eu
desembarcava em Santos com 14 pacotes e volumes de
pertences radiotelefônicos e triste de ver que, no
Brasil, quase ninguém conhecia da minha "moléstia".
E Trouxe para Recife, a bagagem, a "doença"e o
"veneno". Mas já encontrei aqui alguns "malucos
envenenadissimos" como o Augusto Pereira, o Floriano
Costa, Os Gatis, o Oscar Pinto, o Tito, o Oscar
Dubeux e tantos outros. Enfim era um ambiente
fertilíssimo para a bendita moléstia (...)".
O novo emissor do Rádio
Clube, de 300 watts, era do fabricante francês
LUCIEN LEVY e foi instalado pelo Sr. Floriano Costa.
O prefixo dessa estação era SQIC. No início do seu
funcionamento foi operado pelos Srs. Floriano e
Dantas. Posteriormente, foi se operador Oscar Dubeux
Pinto e locutores Octavio Saraiva e Mário Libanio.
Esta estação funcionou
até quando foi substituída por outra de fabricação
Telefunken, com 1 kw, inaugurada em 04 de maio de
1931. Em 1932 foi adicionado a esse transmissor um
estágio de potencia fornecendo à antena uma energia
de 3,8 kw. De 1932 a 1935 fez transmissões a titulo
precário, experimental, em ondas curtas na
freqüência de 6020 khz.
Em 7 de fevereiro de
1937 o Rádio Clube de Pernambuco, transformou-se em
sociedade anônima, sob a denominação de Rádio Clube
de Pernambuco S/A., tendo como presidente o Sr.
Othon Lynch Bezerra de Melo.
Em 17 de fevereiro de
1937 o Rádio Clube de Pernambuco inaugurou dois
novos transmissores fabricados pela Rádio Cinephon
Brasileira; o de ondas médias com 25 kw, operando a
freqüência de 720 khz; e o de ondas curtas, de 5 kw
na freqüência de 6010 khz. (informação da Rádio
Cinephon Brasileira)
Na segunda fase de sua
existência, teve o Rádio Clube como presidente os
Srs. João Cardoso Ayres Filho, Mário Martins,
Antonio de Góes Cavalcanti, Renato Barroso e outros.
Nessa segunda fase que teve inicio em 1923, ou seja
quatro anos após sua fundação, o Sr. Oscar Moreira
Pinto teve marcante atuação na diretoria do Clube,
tendo sido diretor da Secretaria, secretário,
secretário de honra, diretor geral e tesoureiro. Era
esforçado, dedicado e persistente, embora de
temperamento difícil e de relacionamento nem sempre
harmônico com seus colegas. (Jornal pequeno, 28 de
setembro de 1933)
Quando residia no Rio de
Janeiro, era radiotelegrafista e escrevia na
imprensa e revistas especializadas sobre,
principalmente, legislação das comunicações
radiotelegráficas. Transferindo-se para Recife em
agosto de 1923, continuou atuando na imprensa e já
em Recife, nesse ano, publicou um opúsculo onde
reuniu esses artigos e outras notas sobre o mesmo
assunto, intitulado: Crônicas Radioelétricas.
Possivelmente, devido à
sua atuante presença na vida do Rádio Clube e também
à sua freqüente colaboração na imprensa, em assuntos
de rádio, era tido como o fundador do Rádio Clube de
Pernambuco.
A Câmara Municipal do
Recife deu à uma rua próxima à sede do Rádio Clube,
o nome Oscar Pinto, com a justificativa de ter sido
ele o fundador do Rádio Clube de Pernambuco. (Folha
da Manhã, 17 de janeiro de 1948)
A Enciclopédia Mirador,
no verbete: Radiodifusão, informa: "Em 17 de outubro
de 1923 inaugurou-se oficialmente a Radiocultura em
Pernambuco nascida de uma sociedade fundada em 06 de
abril de 1919 por Oscar Moreira Pinto e outros
(...), A Rádio Sociedade constrói em 1948 o Palácio
do Rádio Oscar Moreira Pinto em homenagem ao seu
fundador (...)"
O Almanaque Abril-1982,
da Editora Abril, na página 461, informa: Em 1923
Oscar Moreira Pinto funda a Rádio Cultura de
Pernambuco.
Todas essas informações
que indicam o Sr. Oscar Moreira Pinto como fundador
do Radio Clube de Pernambuco não tem qualquer
fundamento; são inverídicas.
Em 1923 não se fundou a
Rádio Cultura de Pernambuco ou qualquer outra
sociedade do gênero, em Pernambuco.
O acontecimento marcante
em 1923, foi a reorganização do Rádio Clube de
Pernambuco em sessão que se iniciou sob a
presidência de Augusto J. Pereira, o fundador do
Rádio Clube, como já referido.
A verdade histórica
sobre a fundação do Rádio Clube de Pernambuco está
fartamente documentada nestas notas.
Nas fontes pesquisadas
não foi encontrada qualquer informação de que o Sr.
Oscar Moreira Pinto tivesse mencionado ser ele o
fundador do Rádio Clube.
Na revista RADIO nº 2,
de 15 de outubro de 1924, em artigo sobre a história
do Rádio no Recife, de sua autoria, então secretário
do Rádio Clube, consta:
"... em 6 de Abril de
1919 um pequeno grupo de apaixonados amigos do
progresso fundou nesta cidade do Recife o "Radio
Club de Pernambuco" que se propunha (...) vulgarizar
a radiotelegrafia e outras aplicações das ondas
eletromagnéticas.
Nessa época, entre nós,
ainda era quase que desconhecida a maravilhosa
ciência aplicada com suas varias modalidades, de
forma que as dificuldades que se opuseram aos treze
jovens fundadores do Radio Clube, chefiados por
Augusto Joaquim Pereira (...)."
Na mesma fonte, o Sr.
Oscar Moreira Pinto, que anteriormente residia no
Rio de Janeiro, escreve: "Chegando ao Recife a 4 de
agosto de 1923 e ignorando a existência do Radio
Clube de Pernambuco, trazia a idéia de fundar uma
instituição congênere à Rádio Sociedade do Rio de
Janeiro (...)".
Tais declarações do
próprio Sr. Oscar Moreira Pinto, feitas
espontaneamente e de modo tão claro, corroboram a
suposição de que muitos o tinham como o fundador do
Radio Clube pelas razoes já referidas, sem que
tivesse partido dele tal insinuação.
Dr. Mario Melo, que já
havia sido presidente do Radio Clube, publicou no
"Jornal Pequeno" de 22-set-1933 a seguinte nota:
"Estendendo a mão à palmatória
Mario Melo.
A minha palavra não seria digna do
conceito que desfruta - mercê de Deus - tanto aqui
como alem fronteiras, se, reconhecendo-me em erro,
não tivesse eu o desassombro de confessá-lo e
corrigir-me.
Estava plenamente convencido de que me
cabia o direito de um dos sócios fundadores do Radio
Club de Pernambuco. Quando há dez anos passados se
fez uma reunião num dos salões do Diário de
Pernambuco com o fito de fundar-se uma sociedade
para o progresso da Radiotelefonia, compareci a
convite do meu amigo e condiscípulo João Cardoso
Ayres Filho, que era o maior entusiasta do assunto.
Assinei o livro de presença e dei meu apoio à idéia.
Estava, porem, alheio, até então, ao
movimento radiotelefônico, mesmo não possuía ainda
receptor de radio, tanto assim que, indo tempo
depois à sede da sociedade deixei no livro de
visitas a seguinte impressão, agora tornada pública
para gáudio meu do que é prova a sua transcrição,
quando julgavam ferir-me com a publicidade:
"Assisti a instalação do Rádio Clube no
Diário de Pernambuco com a desconfiança de que
tivesse o destino de outras coisas úteis: o
enfraquecimento, a queda, o desaparecimento. Grande
é a minha alegria vendo hoje que resistiu ao
indiferentismo e progride. Maior ainda por me haver
proporcionado momentos agradáveis, de recordação de
minha juventude, com a irradiação que fiz de alguns
números de musica, tocados na "gaita" que tanto
alegrou a minha geração dos saudosos tempos da
Faculdade de Direito."
Foi daí, que João Cardoso,
verdadeiramente fanatizado com o radio em favor do
qual havia investido vultoso capital, reconhecendo o
meu temperamento, e o meu entusiasmo, me presenteou
com dois receptores, um para ondas largas e um para
ondas curtas, afim de que também eu ficasse
contaminado pelo micróbio e desenvolvesse forte
propaganda pela imprensa.
Veja-se que registrei no livro de
visitas, e registrei bem, que "assisti a instalação
do Radio Clube, no Diário de Pernambuco."
Estava na plena convicção de que o Radio
Clube se instalara naquela noite de reunião no
Diário de Pernambuco, como também a minha presença e
o meu apoio motivo por que sempre me considerei um
dos sócios fundadores, embora as minhas mensalidades
só começassem a ser cobradas depois que foram
levantadas as antenas em minha casa.
Agora, porém, um veterano radiófilo me
fez presente de esplêndida documentação, pela qual
se verifica que o Radio Clube de Pernambuco não foi
instalado na reunião do Diário de Pernambuco, a que
me aludo acima, porem numa assembléia realizada na
Escola Superior de Eletricidade, então existente, no
dia 6 de abril de 1919.
Dessa documentação faz parte um exemplar
dos Estatutos, com o visto da Polícia, de 12 de maio
de 1919, assinado pelo então chefe desembargador
Antônio Guimarães. Esses Estatutos foram impressos
na Imprensa Industrial, no mesmo ano, e constam de
10 páginas, sendo a seguinte a diretoria do Radio
Clube: Augusto Joaquim Pereira, presidente;
Alexandre Braga, secretario; Arthur de Azevedo
Coutinho, tesoureiro e Carlos Rios, orador. As
sessões preliminares segundo m'o declarou um dos
remanescentes dessa diretoria, realizaram-se numa
casa modesta, à Rua da Mangueira.
Dessa documentação faz parte, também,
outro papel de importância, porque com assinaturas
autógrafas. Uma vez fundado o Radio Clube,
publicados os Estatutos, pretenderam seus dirigentes
montar um posto transmissor no pavilhão do jardim
Treze de Maio.
Era preciso o deposito, no Tesouro do
Estado, duma caução de 200$000, para garantia do
contrato. Subscreveram por quotas, essa importância:
Augusto Joaquim Pereira, Euclides de Carvalho,
Arthur Coutinho, Ed. Brennand, Luiz Carneiro de
Sousa, Conrado Montenegro, Carlos Rios, Alberto
Soares, S. Mendonça, Alfredo da Costa Moreira,
Manoel Roberto da Costa e Luiz Medeiros. Este último
pagou no dia 14 de novembro de 1919.
Ora, essa reunião realizada no edifício
do Diário de Pernambuco, foi a 17 de outubro de
1923. Entretanto quatro anos antes (1919) já o Radio
Clube, com Estatutos publicados, fazia uma caução ao
Tesouro do Estado, para instalar a sua sede no
Jardim Treze de Maio.
As pessoas referidas acima é que podem
vangloriar-se da prioridade da idéia e da realização
de uma sociedade de rádio em Pernambuco. Somente
elas!
Diante do exposto, não posso mais
considerar-me um dos sócios fundadores do Radio
Clube. Nem eu nem os outros, alguns dos quais
residiam fora de Pernambuco em 1919, e que tanto se
jactam dessa prioridade, pretendendo até
monopolizá-la...."
Em março de 1945,
Augusto, residindo no Rio, escreveu ao seu velho
amigo Mário Martins, então presidente do Radio Clube
de Pernambuco, lembrando de que no dia 6 de abril
daquele ano, o Radio Club estaria completando 26
anos de fundação.
Mário Martins respondeu
com a seguinte carta:
Recife,
11 de abril de 1945.
Amigo Augusto,
A 6 do corrente eu e o Arnaldo lhe
telegrafamos para escutar aí o programa que a nossa
Rádio Clube de Pernambuco lançou no ar em dois
horários: um das 11:30 às 12:00 e outro das 21:30 às
22:00, em homenagem muito justa aos pioneiros da
radiodifusão, comemorando o 26º aniversário de
fundação da Sociedade Rádio Clube de Pernambuco, que
um grupo de fervorosos adeptos da radiodifusão
organizou a 6 de abril de 1919, na Escola Superior
de Eletricidade, situada em Ponte D'Uchoa.
Como vê não caiu em "cesta rota" a sua
sugestão constante da carta que me dirigiu em 10 de
março último.
Aliás, em trabalho que há pouco fiz para
um livro que o DIP vai imprimir sobre a radiodifusão
no Brasil, focalizei a data de 6 de abril de 1919
como da fundação da Sociedade Rádio Clube de
Pernambuco, posteriormente reorganizada a 17 de
outubro de 1923. Tivemos assim a mesma idéia de não
perder de vista aquela data, que importa na
reivindicação para Pernambuco de "Pioneiro da
Radiodifusão no Brasil" e mesmo na América do Sul.
Penso ter assim satisfeito o seu justo
desejo de não querer no olvido o acontecimento que
deu azo a podermos dizer com orgulho: "Daqui partiu
a voz do Brasil para o mundo."
O seu nome não pode jamais ser
esquecido, quando se tratar da radiofusão no Brasil,
porquanto bem me lembro de todo o seu trabalho pela
divulgação dessa ciência entre nós, quando ainda em
embrião, dedicado como você era, dando o melhor de
seu tempo e de sua atividade. Usei mesmo de algumas
de suas frases na moldura do nosso programa, (...),
tanto essas frases nos (...)
Receba um abraço e disponha sempre do
velho amigo que aqui, põe ao seu dispor os seus
limitados préstimos.
Mário Martins"
Uma pequena
história da fundação do Rádio Clube de Pernambuco,
escrita pelo seu fundador, no ocaso da sua vida,
esquecido, magoado, amargurado, foi encontrada nos
seus documentos e aqui transcrita:
"No interesse da verdade histórica e para que não
se perpetuem afirmativas errôneas, tendenciosas,
algumas mesmo de interesse pessoal vaidoso,
esclareço:
O Rádio Clube de Pernambuco foi a
primeira entidade de radiocultura fundada no Brasil,
quiçá na América do Sul. Fundado em 6 de abril de
1919, na Escola Superior de Eletricidade, do Recife.
Devo dizer que as minhas atividades nessa ciência
vinha de longe, podendo afirmar que antes de 1910.
Havia uma mentalidade contrária a nossa "mania".
Éramos perseguidos, os nossos aparelhos apreendidos
pela polícia, etc., porque dizia-se tratar-se de
"clandestinos" no setor de comunicações
radioelétricas.
Essas perseguições, segundo corria
entre nós, originava-se, principalmente da Cia
Marconi, o que não posso afirmar.
Leitor constante de revistas
científicas americanas e francesas, imaginei ser
possível adotar no Brasil a conduta americana na
organização de Rádio Clubs semelhantes aos que
pululavam nos Estados Unidos.
Reuni os maníacos, discutimos
sobre o assunto e resolvemos fundar a nossa própria
associação, para nos livrarmos das perseguições das
companhias privadas e do próprio governo.
Não sei porque sentia-me seguro do
êxito. Não iríamos ter mais os nossos aparelhos
apreendidos. Acreditava poder convence-los que os
"maníacos"nada mais desejavam que liberdade relativa
para seu "hobby" e que os nossos aparelhos
transmissores e receptores "home-made", seriam
respeitados. E foi assim que em 6 de abril de 1919
como acima disse, concretizou-se a minha idéia.
Foram anos de luta; a única renda do Clube era
proveniente da mensalidade dos sócios.
Voltando a fundação: - A primeira
reunião, como disse, foi um sucesso. Não tive mais
duvidas de que iríamos conseguir o fim desejado.
Eleita a primeira diretoria, fui aclamado presidente
e escolhido por votação os demais membros, conforme
consta dos Estatutos impressos, em meu poder. Foi
proposto comunicar, por ofício ou telegrama, às
principais autoridades federais e estaduais, a
fundação do Rádio Clube de Pernambuco o que fiz no
dia seguinte, conjuntamente com o secretário,
endereçando ao Sr. Presidente da República, Ministro
da Viação, Ministro da Guerra, Ministro da Marinha,
Comandante da Escola de Aprendizes Marinheiros, do
Recife, Governador do Estado, Prefeito do Recife,
Chefe de Polícia, Administrador dos Correios e
Telégrafos (que ousadia!).
Todos responderam desejando
prosperidades e agradecendo. Agora, era ir para
diante, com desassombro, com mais calor na nossa
atividade. Seria enfadonho citar todas as peripécias
que vez em quando surgiam e que com habilidade e bom
senso afastávamos. Afoitamente, usávamos os nossos
transmissores e receptores de telegrafia e telefonia
"home-made"e, aos poucos impondo-nos à boa amizade
dos profissionais, oferecíamos para escuta aparelhos
feitos por nós, melhores e mais eficientes do que os
existentes nas estações de T.S.F., já obsoletos, e,
assim eles iam "esquecendo" a nossa
"clandestinidade". Convém esclarecer não ter
iniciado a "mania"em 1919. Antes de 1910 eu já mexia
com o éter. Nesse tempo nunca encontrei aqui no Rio
ou em São Paulo, quando para estas bandas vinha em
gozo de férias, amadores ou atacados pelo "micróbio
do rádio".
Diziam-me constar haver em São
Paulo um "doente" da família Penteado e
acrescentaram: Isso só há lá pelo norte; Recife,
Natal, Paraíba.
Foi com a montagem dos
transmissores de broadcasting da Westinghouse e da
W.E., durante a exposição do Centenário, que se
verificou o verdadeiro interesse pelo rádio.
No Norte, entre os maníacos
adiantados contava eu com as boas relações do
deputado Jader de Andrade. Aproveitei sua posição,
traduzi a lei americana sobre atividades dos
amadores e mandei-lhe uma cópia para que tomasse por
base para uma lei brasileira. O Dr. Jader
respondeu-me que conjuntamente com o Dr. Roquette
Pinto, iriam propor, ou apresentar um projeto de lei
mais ou menos liberal como a americana.
Essa resposta incluí nos vários
documentos sobre a fundação do Rádio Clube que
deixei com Oscar Moreira Pinto, quando após a
reorganização do Rádio Clube de Pernambuco
ausentei-me do Recife para vir e ficar no Rio.
Para não tornar mais longa esta
minha "lenga-lenga", vou terminar, mas cumprindo um
dever de justiça, quero afirmar categoricamente, que
só foi possível dar maior, ou antes, o necessário
impulso ao Rádio Clube de Pernambuco, depois que a
ele se associou o saudoso amigo João Cardoso Ayres
Filho, grande industrial e usineiro, que com o seu
prestígio entre os açucareiros e agricultores, etc,
conseguiu que cooperassem com suas quotas para o
aumento do Capital do Clube e assim possibilitou a
compra do terreno, a construção do edifício-sede,
aquisição do transmissor francês, etc.
Este sim, nunca desejou destruir a
organização, nunca desejou ser "pioneiro"mas deu
grande impulso em suas funções e sempre reconheceu
em mim o verdadeiro iniciador da radioeletricidade
no Recife.
Pessoalmente, nada me move contra
o Oscar Moreira Pinto. Não concordo, não poderia
concordar de maneira nenhuma, com a mania que ele
tinha de querer ser "pioneiro". Não sei se ainda se
encontram no Rádio Clube de Pernambuco os documentos
que a ele entreguei, comprovando a iniciativa
pernambucana no setor da radiocultura.
Felizmente, para fidelidade
histórica, ainda se encontram em meu poder vasta
coleção de revistas, recortes de jornais, etc.,
comprovantes que estão ao dispor de quem os queira
consultar. Afirmo: O Rádio Clube de Pernambuco foi a
primeira associação de radiocultura fundada e ainda
existente no Brasil, quiçá na América do Sul.
Augusto J. Pereira".
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