A RÁDIO CLUBE
DE PERNAMBUCO*
A primeira emissora de rádio do Brasil
Oficialmente, a origem do rádio está
associada às primeiras transmissões da Rádio
Sociedade do Rio de Janeiro, em 1923. Uns
creditam a origem à mesma emissora carioca,
mas em 07 de setembro de 1922, através das
transmissões em caráter experimental do
discurso do então presidente da República,
Epitácio Pessoa. Mas, em 1919, uma emissora
nordestina já havia inaugurado suas
transmissões, num feito devidamente
documentado e comprovado, embora dê margem a
uma polêmica similar a que vemos entre o
fundador da aviação, Alberto Santos Dumont
(1906), e os supostos pioneiros defendidos
pelos EUA, os irmãos Wright (1908).
A
primeira rádio do país, segundo informações
que lutam para serem reconhecidas
oficialmente, é a Rádio Clube de Pernambuco.
Ela pode ter sido também a primeira emissora
de rádio da América Latina, aparecida um ano
antes da entrada da década de 20. Foi
fundada em 06 de abril de 1919 por um grupo
de amadores curiosos com a nova modalidade
de comunicação da época, que era o rádio,
lideradas por Augusto Joaquim Pereira.
Vinte
dias após o surgimento, os estatutos da
Rádio Clube de Pernambuco foram aprovados e
em seguida publicados pela Imprensa
Nacional. Um edital de inauguração da
emissora foi publicado na data do evento no
DIÁRIO DE PERNAMBUCO. Diz o documento: "São
convidados os amadores de Telegrafia Sem Fio
(TSF - como era conhecido o rádio) a
comparecerem à sede da Escola Superior de
Eletricidade (Ponte d´Uchoa) no próximo
domingo, 6 do corrente, às 13h, para a
fundação da Rádio Clube."
As
primeiras instalações da emissora se
situaram no Parque Treze de Maio. No início
da década de 20, a Rádio Clube recebia
discos emprestados de seus sócios, passando
a transmitir óperas, obras clássicas e
recitais, que eram ouvidos por meio de um
rádio receptor, construído de forma
artesanal e que era acompanhado por fones de
ouvido. Sua programação era destinada às
classes média e alta. No ano de 1922, Oscar
Moreira Pinto ingressa à Rádio Clube e, um
ano depois, a emissora começa a funcionar
com seus próprios recursos, e sua sede
mudou-se para a avenida Cruz Cabugá.
Em
fevereiro de 1923, é instalado um pequeno
equipamento de 10 watts, possibilitando a
irradiação das ondas da Rádio Clube no
Centro do Recife e em alguns bairros da
cidade. A façanha se tornou um marco, que
coloca Pernambuco no pioneirismo da
radiodifusão do Brasil. Para se ter uma
idéia, a origem do rádio é atribuída
oficialmente à Rádio Sociedade do Rio de
Janeiro, que foi fundada em abril de 1923
por Roquette Pinto.
Até os
anos 30, fase em que a Rádio Clube de
Pernambuco se consolidava, todas as
emissoras brasileiras funcionaram sem
regulamentação oficial da atividade de
radiodifusão pelo Governo Federal. No início
daquela década, foi instituída a Comissão
Técnica do Rádio, cujo objetivo foi examinar
os assuntos relacionados com radiodifusão
que crescia em todo o Brasil. Em
conseqüência disso, foi promulgado um
decreto do Governo Federal, no ano de 1932,
que definiu o rádio como um "serviço de
interesse nacional e de finalidade
educativa", autorizando a publicidade
radiofônica permitida no limite de até 10%
da programação transmitida pelas emissoras.
A Rádio
Clube foi pioneira também na história do
radialismo esportivo. Foi ela que realizou a
primeira transmissão ao vivo de futebol no
Norte/Nordeste. A narração foi feita pelo
locutor Abílio de Castro, em 1931. Desde
então, a emissora passou a dedicar um espaço
ao jornalismo esportivo, com melhor
aparelhagem técnica e maior potência de
transmissão. Com uma equipe especializada, a
Rádio Clube manteve, nas décadas de 60 e 70,
a liderança absoluta nas transmissões
esportivas da região Nordeste.
Em
outubro de 1935, o Governo Federal
oficializa a Rádio Clube de Pernambuco como
uma empresa de radiodifusão, conforme
decreto número 402 assinado pelo então
Presidente da República, Getúlio Vargas. Em
1936, a Rádio Clube inaugura suas novas
instalações, tendo sua estação radiodifusora
localizada na Estrada do Arraial. Sua
potência foi aumentada para 50 kilowatts,
passando a ser irradiada por toda a região
Nordeste.
Seu
quadro de locutores, a partir de então, se
renova e amplia, com a contratação de
jornalistas, artistas, locutores e
produtores, e sua programação passa a ser de
caráter popular, com radionovelas e
programas de auditório. No ano de 1939,
surge a Rádio Clube FM, dezesseis anos antes
da Rádio Imprensa, considerada oficialmente
como a primeira FM surgida no país.
Em
1942, a Rádio Clube começa a transmitir o
Repórter Esso, noticiário surgido em 1941.
Com isso, os ouvintes do Nordeste puderam se
informar sobre os acontecimentos da Segunda
Guerra Mundial.
A Rádio
Clube até hoje é transmitida, tendo grande
audiência na Grande Recife, sendo uma das
líderes do rádio AM pernambucano. Durante
três décadas, a Rádio Clube contou também
com ondas curtas de 49 e 25 metros, a Rádio
Clube, anos depois de sua origem, podia ser
sintonizada em todo o país e mesmo no outro
lado do Oceano Atlântico.
Infelizmente,nos dias de hoje Recife não
possui mais uma emissora sequer em OC (ondas
curtas), devido às restrições da
descontinuidade na recepção e das
interferências das tempestades magnéticas.
Provavelmente com a evolução da tecnologia
digital, seja possível que as transmissões
em OC sejam menos suscetíveis das
interferências do tempo e da estação do ano.
Desde
1952, a Rádio Clube de Pernambuco pertence
aos Diários Associados, empresa fundada por
Assis Chateaubriand, conhecido como "Chatô",
notável jornalista e empresário da
comunicação no Brasil, sendo responsável
pela instalação da televisão no país, numa
época em que se achava desnecessário
instalar uma TV no país (1950). Nos últimos
anos os Diários, depois de perderem várias
de suas empresas, se transformaram num órgão
mantido pela Fundação Assis Chateaubriand. A
instituição teve origem na gestão dos
funcionários dos Diários, que se tornaram
sócios e gestores da companhia quando "Chatô"
estava doente, nos anos 60.
Atualmente a Rádio Clube de Pernambuco
funciona na Rua do Veiga, número 600, no
bairro de Santo Amaro, em Recife.
Os
amadores do rádio tornam-se profissionais
Na
década de 10, nascia o radioamadorismo, que
tomou grande impulso em função da dimensão
continental do País. A radiodifusão também
surge na mesma década, fruto do pioneirismo
de Augusto Joaquim Pereira e Oscar Moreira
Pinto. Augusto Pereira funda, com um grupo
de amadores, o Rádio Clube de Pernambuco no
dia 6 de abril de 1919. A primeira emissora
do País e uma das primeiras instituições
radiofônicas de todo o mundo.
No dia 2 de novembro de 1920, a Westinghouse
Electric Co. faz uma experiência com a
transmissão de rádio no País. A experiência
seria renovada em 1922, no Rio de Janeiro.
Oscar Moreira Pinto, radiotelegrafista da
Marinha, junta-se à Rádio Clube de
Pernambuco em 1922, sendo encarregado de
adquirir um transmissor de 10 W da
Westinghouse. Esse transmissor permitiu que
o sinal da emissora pudesse ser sintonizado
no centro e alguns subúrbios do Recife. O
Recife contava, na época, com 250 mil
habitantes e era o principal centro
econômico, político e cultural do Norte e
Nordeste. Pernambuco tinha 2 milhões de
habitantes, um dos portos mais movimentados
do País e era governado por Manoel Borba.
No Rio de Janeiro, em 1923, foi então
fundada a Rádio Roquette Pinto, já num
estilo mais profissional. Funcionando na
Academia Brasileira de Letras, ela se
converteria mais tarde na Rádio Ministério
da Educação. Roquette Pinto foi um pioneiro
do cinema e da televisão, concebendo-os como
instrumento de educação popular. Junto com
Henrique Morize, professor da Escola
Politécnica, ele deu os primeiros passos na
utilização do rádio como veículo educativo.
Nas próprias palavras de Roquette Pinto:
"Todos os lares espalhados pelo imenso
território do Brasil receberão livremente o
conforto moral da ciência e da arte; a paz
será realidade definitiva entre as nações.
Tudo isso há de ser o milagre das ondas
misteriosas que transportam no espaço,
silenciosamente, as harmonias."
Entre
abril de 1919 e fevereiro de 1923, em
Recife, um grupo de radiófilos liderado por
Augusto Joaquim Pereira
e financiado pelo industrial José Cardoso
Aires aprimora gradativamente as
transmissões do Rádio Clube de Pernambuco,
garantindo que estas alcancem o centro da
cidade e algumas regiões próximas. No mesmo
ano, em 20 de abril, entusiastas ligados à
Academia Brasileira de Ciências e reunidos
em torno de Edgard Roquette-Pinto fundam a
Rádio Sociedade do Rio de Janeiro que, em 1º
de maio, inicia suas irradiações. Nestas
duas iniciativas pioneiras, o associativismo
é marcado por dose expressiva de idealismo
elitista misturado com curiosidade e
deslumbramento técnico, noções que se
dirigem a uma espécie de utopia de
civilização. Para os integrantes destas
agremiações, de um lado, cultura significa
erudição sob a matriz referencial externa da
época: a Europa ou, mais especificamente, a
França; de outro, tecnologia é progresso
relacionado, portanto, com modernização. Tal
constatação vai ao encontro do que Renato
Ortiz, em raciocínio semelhante, identifica
em relação à urbanização do Rio de Janeiro e
à introdução do cinema, quase no mesmo
período, no início do século 20:"(...) a
idéia de moderno se associa a valores como
progresso e civilização; ela é, sobretudo,
uma representação que articula o
subdesenvolvimento da situação brasileira a
uma vontade de reconhecimento que as classes
dominantes ressentem. Daí o fato de essa
atitude estar intimamente relacionada a uma
preocupação de fundo, `o que diriam os
estrangeiros de nós', o que reflete não
somente uma dependência aos valores
europeus, mas revela o esforço de se
esculpir um retrato do Brasil condizente com
o imaginário civilizado" (Ortiz, 1994: 32).
Cabe lembrar que, desde o início do século
20, cidades como Rio de Janeiro, São Paulo e
Porto Alegre vivem um afã modificador do
cenário urbano que auxilia na estruturação
de um imaginário social da modernidade.
Primeiro, aumentam os impostos sobre as
moradias da região central, afastando a
população mais carente para a periferia, e,
na seqüência, são construídos grandes
prédios públicos ou espaçosas avenidas. Vale
recordar, ainda, como a coroar este
processo, o slogan de Washington Luiz
Pereira de Sousa: "Governar é abrir
estradas". Coincidentemente, é ele o
presidente derrubado pela Revolução de 1930,
que eclode como a expor as divergências
intraoligárquicas e, em plano menor, as
incoerências do progresso de fachada dos
anos anteriores.
Neste
contexto, tem importância significativa a
Exposição Internacional do Rio de Janeiro,
inaugurada em 7 de setembro de 1922 em
comemoração ao centenário da independência
brasileira.
Embora no
discurso oficial do governo de Epitácio
Pessoa houvesse a intenção manifesta de
apresentar uma pretensa pujança econômica
nacional atraindo libras esterlinas e
dólares, eventos deste tipo e porte serviam,
desde o século anterior, na realidade, para
demonstrar a tecnologia de ponta,
contrastando o mundo industria l moderno
das grandes potências com um outro, mais
agropecuário e mercantil no caso
específico, o do Brasil. Assim, o capital
dava mostras daquela sua característica
inata identificada por Karl Marx em Para a
crítica da economia política , de 1859:
"Quanto
mais desenvolvido o capital, quanto mais
extenso é portanto o mercado em que circula,
mercado que constitui a trajetória espacial
de sua circulação, tanto mais tende
simultaneamente a estender o mercado e a uma
maior anulação do espaço através do tempo" (
Pois, na
referida exposição, aquela "necessidade de
um mercado em constante expansão para os
seus produtos", que persegue o capitalismo
por todo o globo, fazendo com que "tenha de
se fixar em toda a parte, estabelecer-se em
toda a parte, criar ligações em toda a
parte" (Marx e Engels, 1987: 37), está
presente nos estandes de duas indústrias dos
Estados Unidos: a Westinghouse International
Company e a Western Electric Company, ambas
com capacidade ociosa de produção desde o
final da Primeira Guerra Mundial, em 1918, e
procurando, por meio das demonstrações
radiotelefônicas então realizadas, a
obtenção de um novo mercado, o brasileiro.
Estas
transmissões, como se sabe, chamam a atenção
de Roquette-Pinto e influenciam o surgimento
da Rádio Sociedade do Rio de Janeiro. Também
junto a uma delas, a Westinghouse, os
entusiastas do Rádio Clube de Pernambuco
adquirem um transmissor de 10 W responsável
pela melhoria do sinal da estação a partir
de fevereiro do ano seguinte.
É, deste
modo, dentro de um quadro de subordinação
cultural e tecnológica que vai surgindo o
rádio no Brasil, um país que, em contraste,
na virada do século 19 para o 20, abrigava
experiências pioneiras de radiotelefonia e
radiotelegrafia levadas a cabo por Roberto
Landell de Moura, mas praticamente ignoradas
pelas autoridades de então, embora, por
vezes, presenciadas por representantes de
governos estrangeiros como o da
Grã-Bretanha, principal potência daquela
época.
No início
dos anos 20, os amadores da radiotelefonia,
sem-filistas ou radiófilos como a imprensa
os chamava gastam suas noites em frente
aos grandes, pesados e caros aparelhos
receptores da época. Um dos bons com três ou
quatro válvulas, custando 400 mil-réis, o
dobro do que ganha, então, em média, um
assalariado, consegue sintonizar emissões de
particulares e comunicações navais, não
importando se telefônicas ou telegráficas. O
objetivo maior, no entanto, é ouvir
irradiações de estações como KDKA, de
Pittsburgh, ligada à Westinghouse, e WEAF,
de Nova Iorque, da American Telegraph and
Telephone, mais facilmente captadas nas
regiões Norte e Nordeste, ou LOR
Asociación Argentina de Broadcasting, LOW
Grand Splendid Theatre, LOS Broadcasting
Municipalidad e LOO Radio Prietto, de
Buenos Aires, e El Día, de Montevidéu, no
Sul e Sudeste.
Na década
seguinte, irradiações como estas servem
ainda de referencial. Ouvindo a NBC, dos
Estados Unidos, e a britânica BBC, em ondas
curtas, Adhemar Casé observa uma diferença
significativa em relação ao rádio brasileiro
da época:
"O
amadorismo das rádios daqui não permitia uma
dinâmica maior. Quando um músico e um cantor
iam se apresentar, o speaker anunciava o
número e, depois, desligava o microfone,
para que pudessem afinar os instrumentos e
até fazer um rápido ensaio. Enquanto isso, o
ouvinte ficava totalmente abandonado. Já nos
programas americanos, o som não parava. Era
uma dinâmica maravilhosa"
Considera-se que o Rádio brasileiro nasceu,
no entanto, em 20 de abril de 1923 graças ao
pioneirismo e visão de Edgard Roquette
Pinto, renomado escritor e antropólogo, e
Henrique Moritze, Diretor do Observatório do
Rio de Janeiro, conquanto os pernambucanos
reivindiquem essa primazia, pois no Recife,
desde 6 de abril de 1919, funcionava a Rádio
Clube de Pernambuco, que atuava no ramo da
radiotelegrafia.
A
Roquette Pinto e Moritze, que fundaram a
Rádio Sociedade do Rio de Janeiro (PRA-A),
juntaram-se Elba Dias, que criou a Rádio
Clube Brasil (PRA-B), e os pernambucanos
Moreira Pinto, Augusto Joaquim Pereira, João
Cardoso Alves, entre outros.